Pregação
Comentários às Leituras Dominicais
20 DE SETEMBRO – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Escutamos hoje a clássica passagem de Isaías: os pensamentos de Deus não são como os nossos. Isto pode ser visto numa perspectiva negativa: somos diferentes de Deus, somos muito pecadores, somos mundanos e não divinos, somos capazes de muita maldade (guerras, injustiças, ódios, etc); mas também pode ser entendido de forma mais positiva: Deus é bom, não é como nós, não é mesquinho, não é vingativo, não castiga mas perdoa! Então, se bem que haja aqui um desafio a converter os nossos pensamentos (e acções), também há aqui motivo para regozijo: ainda bem que os pensamentos de Deus não são como os nossos… são infinitamente melhores e mais puros que os nossos!
A afirmação de Paulo «para mim viver é Cristo e morrer é lucro» é a frase que está gravada no seu túmulo, em Roma. E são palavras que resumem toda a sua vida: ele desejava a vida eterna com Deus mas sabia que, para já, estava na terra para evangelizar e dar testemunho de Jesus.
Quanto ao evangelho de hoje, parece que faz o elogio de uma injustiça: o dono da vinha paga o mesmo a quem trabalhou o dia todo e a quem só trabalhou uma hora ao fim do dia… Claro que esse proprietário representa Deus, e então parece que Deus não é justo! Ora aqui está a concretização do que dizia a primeira leitura de Isaías: Deus é bem diferente de nós…! Vejamos alguns possíveis ensinamentos da parábola:
- Se bem observarmos, Deus dá uma boa recompensa e bom pagamento a todos! Porque é que achamos que Deus não pode ser bom para com todos?
- Certamente que o texto do Evangelho foi escrito a pensar que os últimos a entrar na vinha são os últimos a entrar no Povo de Deus, ou seja, os pagãos, enquanto que os judeus já há muito faziam parte desse povo. Mas os judeus não têm que pensar ou sentir que têm mais direitos do que os outros. Do mesmo modo, hoje, os cristãos não têm que se achar com mais direitos que os pagãos, ateus ou membros de outras religiões: basta olhar para o nosso próprio compromisso e procurar ser santos, sem necessidade de nos compararmos com os outros.
- A vinha pode representar a Igreja. E na Igreja todos são chamados a «trabalhar», uns mais tempo e outros menos tempo… mas todos têm a mesma dignidade e todos são amados pela cabeça da Igreja que é Cristo.
- Quem trabalha mais tempo na vinha, afinal, acaba por ganhar mais do que quem trabalha menos: porque começou mais cedo, também desfrutou mais tempo da vida de amizade com Deus – esse é o maior prémio!
Artigo Dominical no Jornal Público
NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE MUNDO
1. O imperativo que recebemos de S. Paulo, na Carta aos Romanos[1], é precisamente este: não vos conformeis com este mundo. O mundo está sempre em movimento, segundo os tempos e lugares. A teologia autêntica não pode ser conformista, é uma hermenêutica da esperança. Ao darmos razão da esperança, estamos a fazer verdadeira teologia. A esperança é um dom e um empenhamento. Esperar não é aguardar, supõe uma acção, uma nova criação[2].
Referindo-me apenas ao século XX, é preciso distinguir as suas realizações antes e depois do Vaticano II. Antes, foi uma actividade contrariada com normas e sansões a tal ponto, que os grandes teólogos, biblistas e movimentos litúrgicos criativos não se conformaram com essa falta de liberdade no interior da Igreja. Dir-se-á que a história das sansões romanas assumiram, depois do Vaticano II, uma direcção radicalmente diferente. Agora, é Roma que não pode aceitar organizações que pretendem paralisar as inovações da Igreja.
A obra de François Leprieur, Quand Rome condamne, é considerada exemplar para o que foi a Igreja antes do Vaticano II: «A tensão com Roma é vivenciada durante uma daquelas grandes crises que, nos seus momentos mais intensos, revelam tanto instituições quanto indivíduos. Trata-se de uma ruptura irreversível dentro da Igreja e da Ordem de São Domingos; um conflito de imensas consequências: a relação entre a Igreja e a classe trabalhadora. É impossível não se surpreender com o rigor e a rigidez implacáveis que Roma demonstrava em relação aos religiosos que se viam como missionários dos pobres». Já existem obras mais abrangentes. Isto testemunha o que era a vida dos teólogos e biblistas que não se conformavam com este mundo. Nessa altura, eram censurados pelo Vaticano. Agora, a criatividade é estimulada. O que terá acontecido para esta viragem?
João XXIII não se conformou com esta situação e convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Como Núncio de França, tomou conhecimento da obra do teólogo dominicano francês Yves Congar, Verdadeira e falsa reforma na Igreja (Vraie et fausse réforme dans l'Église), 1950. Era o que ele desejava. Não admira que o tenha chamado para a preparação do Concílio. O grande historiador desse Concílio, o jesuíta John W. O'Malley afirmou: «Quando se consideram os escritos de Congar antes do Concílio e a sua influência em muitos dos documentos finais, ele deve ser classificado, na minha opinião, como o teólogo mais importante do concílio»[3].
2. Desarmar é a palavra chave do Papa Leão XIV. Tem precedentes que o grande jornalista António Marujo evoca entre outros, no seu artigo do Expresso (28.08.2026): o escritor J.R.R. Tolkien, o activista e pastor baptista Martin Luther King, a professora queniana Wangari Muta Maathai, primeira mulher africana a receber o Prémio Nóbel da Paz, a Madre Teresa de Calcutá, a pedagoga italiana Maria Montessori, Nelson Mandela e Óscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado ao celebrar a Eucaristia. Contudo, recomendo esta leitura porque o artigo refere muitos outros nomes que marcaram a sua época, na linha de não se conformarem com o estado actual de guerra e seus genocídios.
Muitas outras figuras do século XX devem ser estudadas para serem verdadeiramente conhecidas. Um modo de conformismo é deixar o passado na ignorância, é conformar-se com esse esquecimento. As gerações que vêm, muitas vezes, sepultam as anteriores como se não fossem elas a nossa memória. A verdadeira tradição e a modernidade não se opõem.
O mundo bélico depende das grandes potências de destruição. Neste momento, o mundo do dinheiro recorre à guerra como um grande negócio. O que se gasta a matar dava para muitos milhões pobres, doentes e idosos abandonados viverem com dignidade. «Imaginemos um mundo em que as energias actualmente investidas na guerra fossem canalizadas para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos. Tal visão reflecte a fé na vinda do Reino de Deus», como nos lembra Leão XIV[4].
É precisamente a atitude e a intervenção deste Papa que consegue enfrentar o presente inaceitável. Não se conforma com este mundo como está. Pela sua prática, mostra que é possível dar continuidade a quem nos antecede e simultaneamente trilhar o próprio caminho, estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre, reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta.
Em Lampedusa, teve uma expressão lapidar, precisamente a essência do cristianismo: Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar.
É preciso desarmar a diplomacia da força, transformá-la em diplomacia do diálogo. Ele próprio não hesitou em afirmar que as políticas de imigração dos EUA vão contra os ensinamentos da Igreja. Tampouco se inibiu de condenar a diplomacia da força, após as operações militares na Venezuela e no Irão, defendendo o diálogo como o único caminho para a paz justa[5].
3. No termo do Concílio Vaticano II, a 16 de Novembro de 1965, foi redigido e assinado um documento, o Pacto das Catacumbas, por quarenta padres conciliares, entre eles muitos bispos latino-americanos e brasileiros. Não queriam deixar este concílio no passado, mas fazer dele um compromisso com o futuro. Este documento foi assinado após a Eucaristia na Catacumba de Domitila.
Os signatários comprometeram-se a levar uma vida de pobreza, rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. Comprometeram-se também com a colegialidade, com a co-responsabilidade da Igreja como Povo de Deus, com a abertura ao mundo e ao acolhimento fraterno. Um dos proponentes do pacto foi Dom Hélder Câmara. Este pacto influenciou a nascente Teologia da Libertação e os rumos da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín (Colômbia 1968).
Esta Conferência tornou-se a grande referência para o futuro de todas as Igrejas. O Papa Leão é a última expressão dessa caminhada.
Na sua Mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (2026), assinala que «a promessa de paz, de Jesus Cristo, contrasta fortemente com as realidades que observamos em muitas partes do mundo. Já o profeta Isaías falou de um tempo em que as nações transformarão as suas espadas em relhas de arados (Is 2, 4), mudando aquilo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direccionados para a violência e a guerra».
Não nos podemos conformar com este mundo vergonhoso que destrói povos e o próprio planeta Terra. Temos de construir os caminhos de uma paz desarmada e desarmante.
Fr. Bento Domingues in Público, 13/9/2026
_____________
[1] Rm 12, 1-2
[2] Cf. Gustavo Gutiérrez, in Selecciones de teologia, 211 (2014 Vol. 53) p. 214; cf. Gonçalo Diniz, O clamor do não-homem, UCP 2020.
[3] John W. O’Malley, L’ événement Vatican II, tradução Francesa, Lessius, 2011
[4] Mensagem de Leão XIV para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, 2026
[5] Cf. 7Margens, 07.05.2026
Ecos da Palavra
(RE)ENCONTROS E (RE)COMEÇOS
Eis que, para muitos que estiveram em férias e que, ao longo do mês de Setembro, com o habitual início das actividades nas Escolas, Colégios, Catequese, Grupos de Jovens comunidades e fraternidades, se dá um período de encontro e reencontro nas comunidades e fraternidades da família dominicana e das famílias de cada um.
Começa também, em Novembro, um novo Ano Litúrgico! E nele, somos convidados a focar a nossa atenção no Evangelho escrito por São Marcos (Ano B). É o Apóstolo que descreve, com menos pormenores, a infância de Jesus! É também em São Marcos que se revela a fonte Q (do alemão Qvelle=fonte) e, portanto de forma mais breve a vida de Jesus. É também Marcos que nos narra "o fim dos tempos", embora faça advertências nesse sentido, porque não estabelece uma relação de causa/efeito desse fim com a destruição do Templo de Jerusalém. Foi escrito em virtude das necessidades catequéticas e pastorais do seu tempo, embora já se saiba que Marcos não foi contemporâneo de Jesus, mas que seguiu as pisadas dos Apóstolos Pedro e Paulo. Não temos neste Hagiógrafo os pormenores da infância de Cristo. É, no entanto o Evangelista cronologicamente mais aproximado de Cristo e esse facto merece a maior atenção.
A "todos! todos! todos!", como dissera o saudoso Papa Francisco, nos é concedida uma oportunidade de mudar sempre para melhor, à medida que vamos crescendo na Fé. O próprio Apóstolo Paulo reconhece que nem sempre faz o bem, apesar de ser essa acção a que mais convém. Temos o livre-arbítrio, fruto da nossa liberdade, mas não sentimos sempre o silêncio ou a ausência de Deus, porque todos temos consciência, que é, de acordo com um dos documentos do Concílio Vaticano II, "o santuário íntimo da alma".
Pensemos nos cristãos que não são livres de poder celebrar publicamente e sem medo a sua fé; ponhamos os olhos nos pobres, muitos dos quais São Pier Giorgio Frassati apoiou, após se ter formado em engenharia de minas, precisamente para ir ao encontro de homens concretos, que trabalhavam com o suor do seu rosto em condições difíceis; fixemos o nosso olhar em tantos Beatos e Santos da nossa Ordem, muitos dos quais viveram no anonimato e gastaram a vida fazendo o bem; sintamos nas nossas comunidades e fraternidades a coragem para pormos "as mãos na massa" e, pela oração, pelo estudo, pela vida fraterna e pela pregação multiforme, sigamos o ideal de darmos o nosso melhor para salvar muitas almas! Não nos esqueçamos de São Paulo, quando ele nos escreve: "Combati o bom combate! Alcancei a fé."

OP'Media
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- 13/12/2012 - Fr. Bento Domingues - 50 anos Concílio Vaticano II, ECCLESIA VÍDEO
- 5/12/2012 - Fr. Bento Domingues - Concílio Vaticano II, AGÊNCIA ECCLESIA - VÍDEO
- 27/5/2012 - Fr. Bento Domingues - Coloquios á 6ª, VÍTOR PEREIRA - VÍDEO
- 11/4/2011 - Fr. Bento Domingues - Frei Bento Domingues, António Colaço - VÍDEO
- 15-17/10/2009 - Fr. António-José d'Almeida - Comunicação de Fr. António José de Almeida “As Imagens de Santos Dominicanos e Franciscanos impressas no Flos sanctorum em linguagem português, Lisboa 1513”, in Manuel PELÁEZ del Rosal (ed.), Actas III Congreso Internacional sobre el Franciscanismo en la Península Ibérica, Ciudad Rodrigo (Salamanca), 15-17 octubre de 2009, Córdoba, Asociación Hispánica de Estudios Franciscanos (AHEF), 2012, II vol., pp. 519-539 TEXTO
- 10/5/2008 - Fr. Bento Domingues - Questões sobre Laicidade (1 de 2), MARCO OLIVEIRA - VÍDEO



