Dominicanos Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores
Home » Província de Portugal » Vicariato de Angola

Vicariato de Angola

Ordem dos Pregadores em Angola

Ordem dos Pregadores em Angola - Dominicanos

O Vicariato de Angola é um Vicariato Provincial que faz parte integrante da Província de Portugal.

No ano de 1982, foi fundada a Comunidade Dominicana do Waku Kungo, em Angola. Por sua vez, no dia 4 de Dezembro de 1987, é fundada a Casa de São Tomás de Aquino, em Luanda. Contudo, o Vicariato de Angola só seria formalmente instituído em Julho de 1993, por ocasião do Capítulo Provincial que se realizou nesse ano.

A comunidade fundadora era constituída pelos seguintes irmãos: frei João Domingos, frei Gil e frei José Nunes. Mais tarde, o frei João Domingos seria instituído Pároco da Paróquia do Carmo, em Luanda. O mesmo frei João Domingos dirigiu ainda o Instituto de Ciências Religiosas de Angola e fundou a ‘Escola João Paulo II’.

Existem presentemente três comunidades em Angola: a Comunidade de São Domingos, no Waku Kungo; a Comunidade de Santo Alberto Magno, em Viana; e a Comunidade de São Tomás de Aquino, na Nova Vida, em Luanda. Esta última comunidade foi recentemente elevada a ‘Convento’ e junto dela funciona a ‘Escola Frei João Domingos’, inaugurada em Fevereiro de 2016.

O Vicariato é dirigido localmente pelo Vigário Provincial e pelo seu Conselho. O Vigário, por sua vez, é eleito pela Assembleia Geral do Vicariato.

Vigários Provinciais de Angola:

- Frei José Manuel Valente da Silva Nunes (1993-1994)

- Frei João Domingos Fernandes (1994-2002)

- Frei Mário Rui Serralheiro Marçal (2002-2006 e 2006-2010)

- Frei Miguel Gabriel Chacachama (2010-2014)

- Frei José Sebastião Paulo (2014-2018)

Dominicanos no Huambo por fr. António Estêvão, op

A VIAGEM E O CONTEXTO DA NOVA MISSÃO

 

O meu regresso à base é definitivo e aconteceu a 15 de Novembro de 2017, depois de três anos fora do país. Três dias depois, e como inicialmente previsto, viajei para o Huambo a fim de integrar o grupo de “fundadores” de uma missão dominicana no Planalto Central. O projecto prevê abertura de um Convento, de uma Paróquia e de uma escola-extensão do Complexo Escolar «Frei João Domingos».

A Viagem ao Huambo 

Comigo viajaram dois postulantes (o Miguel e o Katchipa). Percurso preferido: Luanda, Dondo, Huambo. A saída de Luanda foi por Viana e Catete, em estrada boa. O calvário começou no controlo do Zenza do Itombe, naquela bifurcação que divide os viajantes: uns para Ndalatando, Malange, lundas; outros para o Huambo.

À saída do controlo policial, um placard faz questão de alertar: «Dondo, 60 kilómetros». São quilómetros de martírio: buracos, poeira e lama, numa estrada, novamente em reabilitação. Há buracos nas estradas e estradas nos buracos. “Buracos na estrada”, percebe-se. “Estradas nos buracos” é mais difícil de entender. Mas explico-me: ao longo da viagem, inúmeras vezes o asfalto desaparece, dando lugar aos buracos. Nos buracos e entre pedras e lama, o automobilista procura descobrir possíveis estradas. São as estradas nos buracos. E foi assim a nossa vida até ao Dondo. Tínhamos já percorrido 170 quilómetros desde Luanda. A viagem continuava longa e louca. Havia mais 400 quilómetros pela frente. Era necessário reabastecer o depósito que já estava a meio. Mas algo insólito aconteceu: não havia Gasóleo no Dondo! Pior ainda: era Domingo e tudo estava fechado. Avancei mais 10 quilómetros, até ao Alto Dondo. As bombas também estavam encerradas. Que fazer? A próxima estação de abastecimento estava a 200 quilómetros, na Kibala. Então decidi regressar ao Dondo. Foram vários rodeios à vila. Não havia Gasóleo. Estava tudo esgotado. Lembrei-me então dos Missionários Salesianos. São meus amigos. Alguns deles conheceram-me em Kalulo, onde mantêm uma presença missionária de mais de três décadas. É provável que, com eles, eu tenha alguma chance, pensei. Decerto, terão compaixão de mim. Acelerei até à sede paroquial do Dondo onde encontrei o Padre Gino Favaro, sentado num banco corrido. Parecia chateado e cabisbaixo: «Bom dia, padre Gino. Que se passa? Está doente?», perguntei. A resposta foi imediata: «Bom dia, Frei Estêvão. Seja bem-vindo. Estou triste porque não consegui visitar as comunidades para celebrar a missa. Não tenho Gasóleo!»…Olhei contrariado para os postulantes que soltaram uma valente gargalhada. E o padre continuou o recital de tamanha adversidade: «Estamos mal. Não temos Gasóleo de reserva. O gerador não trabalha há uma semana». Que desgraça! Vamos ter de pernoitar aqui? São apenas 10 horas. Que fazer? Despedimo-nos do Padre Gino. Ele tinha outras narrativas, mas nós queríamos ganhar tempo. Ao deixar o portão, avistámos dois jovens que traziam Gasóleo comprado à saída do Dondo na estrada para Luanda. Avançamos então até à zona das mangueiras onde a Providência nos reservou o último bidão de 20 litros. Mas o jovem vendedor é oportunista. Aproveitou-se da minha aflição e aumentou o preço: «é 5000 Kzs, cota!».

Com o depósito completo e depois de hora e meia nesta brincadeira, criámos boa disposição e retomámos a viagem. A partir daí a estrada estava razoável. Tínhamos de ganhar tempo. E ganhámo-lo acelerando um pouco mais até ao desvio para a vila de Kalulo. Mais de 60 quilómetro de estrada em reabilitação, o que permitiu alcançar 80 Km/h. Depois há um troço novo até à comuna do Lussusso. Na Kibala reiniciámos o sofrimento. Os 70 quilómetros que separam o Wako da Kibala foram desastrosos. A comuna do Katofe acolheu-nos com chuva torrencial e agudizou o nosso drama. A violência das gotas pluviométricas atrapalhava a visualização do troço que apresentava um panorama díspar: charcos de água, desvios enlameados e restos de pedrinhas do asfalto raspado. O cenário foi anómalo nos últimos 10 quilómetros antes do Wako Kungo. Volumes enormes de água invadiram a via. A estrada parecia um rio asfaltado.

Durante a viagem a presença de chineses revelava-se imponente, por vezes irritante. Além de dirigirem obras paliativas de qualidade duvidosa na construção civil, há também chineses envolvidos no comércio e na exportação ilegal de madeira, actos já denunciados por governadores. A nossa riqueza continua a ser severamente pilhada sob o olhar impávido e sereno de patriotas passivos que deviam punir tamanha transgressão.

Chegados ao Wako Kungo fomos acolhidos pelos freis Gil e Adriano. E avançámos para o refeitório. À mesa, um cardápio bem tradicional, nacional e funcional, sobretudo para quem galgou mais de 300 quilómetros: funje com repolho, peixe seco e galinha rija, a tal que tem pai e mãe no dizer do povo. Mas aquela galinha, além de pai e mãe, deve ter tido uma vasta genealogia: estava muito rija!

Depois de alimentados e “reabilitados”, deixámos o Wako e retomamos a estrada, já num troço mais simpático e com menos buracos até à ponte sobre o Rio Keve. A partir daqui a via está boa até ao Huambo. A cidade acolheu-nos à noite. Eram 19h30. E avançámos mais 20 quilómetros até à Caála. Era Domingo. Tudo estava calmo. À chegada, o frei Celino acolheu-nos à porta da vila e apresentou-nos três religiosas das Franciscanas da Apresentação que ajudaram nos arranjos na casa alugada. As Irmãs da Apresentação são uma Associação Apostólica fundada por Dom Zacarias Kamwenho, Arcebispo Emérito do Lubango, o nosso “pai” que, enquanto Bispo do Sumbe, nos acolheu no Wako Kungo em 1982.

Mas a Caála é a nossa nova aventura missionária com novos contornos num novo contexto. Depois do jantar, mostraram-me os meus novos aposentos, diferentes dos meus quartos de Lisboa e Luanda, no Nova Vida. Aqui a vida também é nova, mas um novo diferente e antigo. O meu quarto tem três cores, incluindo a cor da sujidade. Em menos de uma semana a minha vida mudou drasticamente: viajei do Alto dos Moinhos para a Caála, com escala em Luanda. Estava exausto: foram 12 horas ao volante (7h-19h30). Quem, à mesma hora, partiu para Lisboa, percorreu 7 horas de avião e chegou primeiro que nós, às 14 horas. Nesta altura estávamos na Kibala a reabastecer a viatura.

Fui descansar às 21h30.

O Contexto da Nova Missão

A viagem aconteceu a 19 de Novembro. No dia seguinte fui conhecer o nosso Terreno. São 5 hectares. Neste espaço, tudo impressiona: o declive para o riacho, o verde à sporting, um landscape sublime e a proximidade com a centralidade da Caála, cujos moradores serão os nossos prováveis paroquianos, como orientou o Arcebispo local, Dom Queirós Alves.

 A visita ao Pároco foi emocionante. Redescobrimo-nos mutuamente. Fomos colegas no Seminário Maior de Cristo Rei, em 1996. Ambos suportámos a batalha filosófica e enfrentámos professores temidos como o Padre Gil Pagès e o Dr Pedro de Morais… Na Caála o Pároco tem uma área pastoral vastíssima. São mais de 10 centros paroquiais, em rápida progressão. Nesta região, a expansão da Igreja é irreversível. O Padre celebra sempre para uma enorme multidão que participa, apupa, aplaude e refila. As missas são intensamente animadas, com homilias em Português e Umbundu. Por isso, a preparação da celebração eucarística deve ser cuidadosa e cautelosa. Aos fiéis não interessa que o padre seja arguto e astuto no discurso, dizendo pieguices e mesmices bíblicas ou doutrinais; nem lhes interessa que o pregador produza barulho por escassez de ideias. Apesar dos altos índices de iliteracia entre os cidadãos, o povo do Huambo é atento e inteligente. Respeita profundamente o seu padre, mas exige muito dele: exige mais presença e uma pregação resultante de uma argumentação exegética contextualizada que convence e converte. Aliás, um dos prováveis pontos de fuga dos cristãos faz parelha e vizinhança com a sede paroquial da Caála: a Igreja Evangélica Congregacional. É uma confissão religiosa portadora de história, de estórias e de raízes firmadas na mente e na cultura do povo Umbundu, mormente do Huambo.

 O encontro com o Arcebispo foi simples e simpático. Já tinha lidado com Dom Queirós nos meus tempos de repórter da Ecclesia. O prelado parecia cansado. Está quase jubilado, à espera do seu sucessor. Faz repetidas referências à sua resignação. Foram vários anos de Huambo na coordenação pastoral de mais de 50 missões, paróquias e centros pastorais, algumas das quais sem pároco residente. O seu último sonho é a provável inauguração da Universidade Católica do Huambo, no início de 2018.

A audiência com o Vice-Governador Calunga foi outro momento inesquecível. Em geral, a ideia que se tem dos governantes é de gente distante, renitente e arrogante. Mas fui recebido por um vice-governador sereno, discreto e atencioso. Soube depois que ele é membro da ACGD, a Associação Cristã de Gestores e Dirigentes. Portanto, o vice-governador é católico, a par do Governador Kussúmua que até foi seminarista. O Huambo é como uma árvore que cresce silenciosa, sem produzir ruídos. É uma urbe arrumada, modernizada e esbelta, apesar de pequenos focos de lixo nalguns cantinhos, a exemplo do que vimos na floresta que separa o Seminário Espiritano da residência das Irmãs Teresianas nas Cacílias. De resto, o Huambo é uma cidade que respira vida, com uma densidade populacional em alta. O clima é dos melhores. Esta cidade lembra-me Cork, na Irlanda: sempre molhada e verde. Nalguns casos chove todo o dia e todos os dias. O povo é simples, humilde e trabalhador. No Huambo há produção agrícola abundante, mas revolta-me os preços dos produtos que o povo define e aceita. Por exemplo, uma bacia de mangas custa 200 kwanzas! É uma injustiça. O camponês vai à lavra todos os dias. Enfrenta a chuva, o calor, o frio, as cobras, os ratos, os insectos roedores das sementeiras. O povo camponês paga a charrua e o combustível. As senhoras carregam o bebé às costas, caminham quilómetros a pé. E, no fim, vendem os produtos a um preço tão baixo? É revoltante. O preço devia ser mais alto. É uma questão de justiça.

 Além da beleza da sua cidade capital, o Huambo também regista desacertos, alguns dos quais assustadores como a delinquência. A Caála é uma das vilas com altos índices de criminalidade, segundo dados das autoridades policiais locais. Esta informação foi rapidamente confirmada na nossa quinta noite na Caála: no dia 24 de Novembro, por volta das 2h40 da manhã, assisti impávido e em directo, ao ataque e arrombamento de uma agência da ZAP (nossa vizinha) da qual foi surripiado importante material informático, entre computadores e descodificadores. Tratou-se de um filme de acção a que os marfinenses chamam cinéma cadeau... Nas suas acções, os delinquentes não se esqueceram das comunidades religiosas. As irmãs Filhas de África foram inúmeras vezes assaltadas. Para mais, o acesso ao nosso Terreno faz-se através de uma passagem obrigatória pelo Bairro da Lenha. Trata-se do principal bastião dos marginais da Caála, segundo um oficial do Comando Municipal da Polícia que orienta os frades a não circularem por aquele bairro, depois das 18 horas.

No dia a seguir ao assalto referido, um dos dois postulantes aproveitou a vizinhança da Caála com a Caconda, sua terra natal, e decidiu regressar à casa dos seus pais, deixando-me, por escrito, uma frase sugestiva: «Se está difícil, é porque ainda não chegou a hora». E lá se foi o Katchipa.

 O Frei José Paulo juntou-se a nós na semana seguinte. Durante a sua estada, foram seguidos e conseguidos novos passos no Projecto: definição do Terreno pelo topógrafo, implantação de vigas e terraplanagem do espaço. No último dia, o Frei Paulo pediu um encontro com o soba e todo o seu séquito para a bênção tradicional do Terreno. Trata-se de uma estratégia de inserção do Projecto dominicano na cultura local. A ideia é também conquistar a empatia das autoridades tradicionais e a simpatia das populações circunvizinhas. Os membros da comitiva estavam felizes por receber os frades. Aludiam reiteradamente à educação dos filhos com o apoio da Igreja. Em resposta, o Vigário Provincial explicou que a missão dos Dominicanos é trabalhar para o povo e com o povo. Percebi então que, em geral, o povo simples não é tão exigente. Não pede riqueza que nunca teve. Precisa apenas de condições básicas para viver: pede luz, água e escolas para as crianças; pede centros de saúde para as famílias e emprego para os jovens. O resto, o próprio povo produz. Tem campos agrícolas e gado. No Huambo, vive-se da agropecuária familiar. As pessoas conhecem-se profundamente. Como sói dizer-se, “sabem de tudo sobre todos”. Apoiam-se mutuamente nas mais diversas circunstâncias e carências. A solidariedade é uma característica distintiva destas famílias. O povo exige apenas que o Estado lhe dê condições básicas essenciais. Toda a prédica além disso pode valer tanto como zero, sobretudo num contexto em que os discursos oficiais, quais birras políticas, são encarados com perspectiva eleitoralista, nalguns casos.

 No dia 12 de Dezembro acolhemos o Prior Provincial em visita canónica. O frei José Nunes admirou o projecto: terreno vasto e vistoso, cujo desafio inicial e primordial é financeiro: «Onde iremos buscar fundos para tamanha obra?», interrogou-se. «Deus proverá», respondi sem dizer nada.

Em suma, proponho que a implementação do Projecto dominicano no Huambo anteveja viagens longas e aquisição de meios de locomoção em bom estado técnico. Apesar da reabilitação em curso, as estradas angolanas continuam precárias. Além disso, o nosso Projecto prevê a construção de estruturas de evangelização e de instituições de apoio às populações com particular destaque para o sector da educação. É verdade que a Caála nunca teve nenhuma comunidade religiosa masculina. Mas a pregação da Boa Nova e a aposta no sector social não serão novidades para as populações desta vila. Serão reforços às estruturas ecclesiais já existentes, que foram sendo criadas pela Arquidiocese através da Paróquia local com a colaboração de institutos religiosos femininos. Daí a questão: que novidades trarão os Dominicanos para a Caála em termos de criatividade pastoral? Decerto, o futuro deverá responder a esta questão.

Que Deus abençoe o nosso Projecto e São Domingos interceda por nós. Bem precisamos.

Fr. A. Estêvão, op

(24.01.2018)