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Ordem Dominicana

Ordem dos Pregadores - História, Espiritualidade e Estrutura

Ordem dos Pregadores -  História, Espiritualidade e Estrutura - Dominicanos

 

História

“O curso da história dominicana é como o de todos os rios. Por vezes corre forte e caudaloso, por vezes as suas águas reduzem-se a um fio. Nunca, porém, deixa de correr” (William A. Hinnebusch, op).

Para cada época histórica, em atenção aos seus desafios próprios e às necessidades cíclicas de reforma e purificação da Igreja (Ecclesia semper reformanda), Deus suscita grandes santos e profetas entre o seu povo. Foi o que se passou nos primeiros anos do séc. XIII, com o surgimento das chamadas ‘ordens mendicantes’, pela mão de homens da estatura de São Francisco de Assis e de São Domingos de Gusmão.

Domingos nasceu em Caleruega, Espanha, por volta de 1170/71, oriundo de uma família nobre castelhana. Domingos intuiu como poucos a missão que o Senhor tinha para ele: dedicar-se ao ministério da Palavra de modo eminente, pela pregação incansável e constante. Dele se dizia, de resto, que, “só falava de Deus ou com Deus”.

Numa época em que a pregação era um ministério reservado aos bispos e em que grassavam heresias em muitas regiões da Europa Ocidental, que atraíam muitas pessoas, Domingos, lendo os sinais dos tempos, teve a intuição evangélica de criar um grupo de irmãos pregadores – livres pela pobreza e itinerantes por natureza - que, a partir da vida comunitária, do estudo e da oração intensa, levassem a Palavra de Deus a todo o mundo. A este propósito, o Beato Jordão de Saxónia, segundo Mestre da Ordem (depois de Domingos), oferece-nos um poderoso retrato do fundador da Ordem dos Pregadores: “Inflamado de zelo por Deus e de ardor sobrenatural, pela sua caridade sem confins e o fervor do espírito veemente, consagrou-se totalmente à observância apostólica e à pregação evangélica”.

São Domingos distinguiu-se pelo seu interesse no estudo da Sagrada Escritura e pela sua paixão pela verdade, a tal ponto que a palavra Veritas constitui um dos lemas mais significativos da Ordem. Mas São Domingos distinguiu-se igualmente pelo seu amor aos pobres e pela sua compaixão pelos pecadores. A provar a sua acção caritativa, basta recordar o memorável episódio, em que, por ocasião de uma grande fome, São Domingos não hesitou em vender os seus livros – que na época constituíam um bem de grande valor patrimonial – para socorrer os famintos da região afectada.

Entretanto, São Domingos rodeou-se de alguns companheiros e começou a engendrar a fundação, no seio da Igreja, de uma nova ordem religiosa. Assim, na Primavera de 1215, o Bispo Foulques de Toulouse estabeleceu-os como uma fraternidade de pregadores na sua diocese. O passo seguinte seria obter a confirmação papal da fundação. A oportunidade surgiu quando o Bispo Foulques partiu para Roma, em 1215, tendo Domingos como companheiro, para tomar parte no IV Concílio de Latrão.

Em Roma, o Papa Inocêncio III mostrou-se muito receptivo em relação ao ideal de Domingos e seus companheiros. Na Primavera de 1216, Domingos, tendo adoptado a Regra de Stº Agostinho e composto os respectivos estatutos, viu o seu projecto ser bem acolhido pelo Papa. Contudo, a aprovação formal da Ordem – inicialmente como uma corporação de Cónegos Regrantes - chegaria apenas no fim desse ano, no dia 22 de Dezembro de 1216, pela mão de Honório III (Inocêncio III havia entretanto falecido, em Julho). Uma segunda bula, publicada no dia 21 de Janeiro de 1217, reconhecia a novidade das ideias de Domingos e aprovava a sua fundação como “uma Ordem que teria o nome e seria uma Ordem de Pregadores”.

Quando Domingos faleceu, na Festa da Transfiguração do Senhor, em 6 de Agosto de 1221, em Bolonha – cidade que o declarou seu padroeiro -, a sua obra já tinha alcançado grande sucesso. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, difundiu-se em muitas cidades da Europa, particularmente cidades universitárias, em atenção ao carisma especial da Ordem.

Domingos foi canonizado, no dia 3 de Julho de 1234, pelo Papa Gregório IX, que o comparou, então, aos Apóstolos e a outros fundadores eminentes, como Bento de Núrsia e Francisco de Assis. A chama que nele ardia nunca mais se extinguiu. E, de facto, no ano 2016, a Ordem festejou o Jubileu dos 800 anos!

 

Espiritualidade

Antes de mais, a espiritualidade dominicana é uma espiritualidade cristã. Conforme nos ensina Gustavo Gutiérrez, eminente teólogo dominicano, esta tem dois momentos: o primeiro momento consiste no encontro pessoal com Jesus; o segundo momento é o do seguimento de Jesus. É neste quadro espiritual básico que se insere a espiritualidade dominicana. Naturalmente, contudo, a espiritualidade dominicana tem as suas especificidades próprias, em atenção à grande riqueza de dons e carismas de que a Igreja é portadora. A partir desta realidade, podemos desde já adiantar que a espiritualidade dominicana funda-se num tripé, formado pela vida comunitária, pelo estudo e pela oração. E este tripé existe em função de uma missão essencial: a pregação evangélica.

Por ‘vida comunitária’ não se quer fazer referência a uma simples convivência grupal, debaixo de um mesmo tecto e partilhando as despesas correntes da vida diária. Isto seria sempre um critério quantitativo, altamente insuficiente neste contexto. De facto, a ‘vida comunitária’ que está verdadeiramente aqui em causa é a vida fraterna comum. Esta é que é fonte da vida espiritual dominicana. São as relações humanas fraternas, a partilha da fé e da vida que dão o tempero próprio a uma pregação que se pretende conjunta, de toda uma comunidade. Um exemplo que ficou célebre na história da Ordem foi o da pregação de António Montesinos, na Ilha de La Hispaniola, no séc. XVI. Coagida a comunidade a se distanciar da pregação profética – e muito incómoda - de Montesinos, Pedro de Córdova, prior conventual, não hesitou em defender o seu confrade Montesinos, perante as autoridades civis e militares, e em afirmar que a pregação de Montesinos era a pregação de toda a comunidade.

No que se refere ao estudo, desde os primórdios da Ordem que São Domingos imprimiu no ‘ADN’ da espiritualidade dominicana a paixão pela verdade (‘Veritas’, lema da Ordem), animando os seus confrades ao estudo e à investigação, ao aprofundamento teológico e escriturístico. Não foi por acaso que os primeiros conventos da Ordem surgiram nas grandes cidades universitárias medievais e, mais precisamente, junto às respectivas universidades. Foi o caso de Bolonha, de Paris, de Salamanca e de Oxford, apenas para dar alguns exemplos mais significativos. Num mundo globalizado e complexificado como o nosso, faminto da verdade e da misericórdia cristã, a dimensão dominicana do estudo e da investigação continua a ter hoje, talvez mais que nunca, toda a pujança e actualidade.   

Chegamos então à oração. A vida dominicana não teria subsistência fora dum quadro de forte presença e referência a Deus e de ardor evangélico. Estas realidades encontram a sua fonte na oração e na prática sacramental, esta também uma forma eminente de oração. É pela oração – comunitária e pessoal – que se vivem os momentos mais explícitos de diálogo com Deus. Mas a oração é também o transfundo vital da vida fraterna comum e do estudo. Efectivamente, sem sentido evangélico não se consegue ver no outro um irmão e o estudo redundaria em mera vaidade ou vacuidade. A este respeito, é fundamental ter presente o adágio espiritual dominicano, Contemplata aliis tradere (‘contemplar e dar o contemplado’). O dominicano é chamado à contemplação no estudo, na oração e na vida fraterna comum, e a partilhar os frutos dessa contemplação. Deste modo, o dominicano é chamado a ser contemplativo na acção.

Formada a partir destes elementos estruturais, a espiritualidade dominicana deverá desembocar na sua missão última: a pregação do Reino de Deus, conforme ao Evangelho. Esta pregação está marcada, no dominicanismo, por uma dimensão claramente cristocêntrica - marcada pelo mistério da Incarnação e pelo mistério Pascal -, e é potenciada pela pobreza evangélica e pelo animus missionário dos seus membros.

 

Estrutura

E agora uma breve referência à estrutura da Ordem dos Pregadores, concretamente à sua estrutura actual.

O Mestre da Ordem é o sucessor de São Domingos e está sedeado, juntamente com os seus assistentes, em Roma, no Convento de Santa Sabina. É o prelado próprio e imediato de todos os irmãos, conventos e províncias, em virtude da profissão de obediência feita a ele por cada um dos seus membros.

O Capítulo Geral, por sua vez, que tem a suprema autoridade na Ordem, consiste na reunião dos irmãos representantes das diversas províncias, para tratar e definir tudo o que diz respeito ao bem de toda a Ordem e, se for o caso, eleger o Mestre da Ordem.

Cada província, por sua vez, é dirigida por um prior provincial, com o auxílio do seu conselho. Uma província poderá ter, sob a sua jurisdição, um ou mais vicariatos.

A província é composta por conventos, casas e obras, onde vivem e a partir de onde os irmãos pregadores realizam o seu trabalho apostólico.